Serve-se um olhar mundano e libertino. Serve-se uma arrogância sonhadora e juvenil. Serve-se uma ironia coerente e um humor valorativo. Serve-se tradição e modernidade. Serve-se na condição humana, Brinda-se com a casmurrice pessoal!

15
Jan 07

Capítulo II

D


evido ao início do ano lectivo, do ano escolar, o final daquele trágico Verão passou sem este G...enial homem dar por isso, e por causa do seu novo emprego e todas as responsabilidades e actividades pedagógicas que este envolvia, o primeiro tempo de que dispôs unicamente para si, foi num fim-de-semana “grande”, graças ao feriado local numa quinta-feira, e consequente ponte escolar na sexta a seguir, já quase no final do mês de Novembro.
A primeira possibilidade que lhe ocorreu para passar estes quatros dias, foi fazer uma visita a seus pais. Pois, apesar de tudo o que acontecera, haviam sido eles que o tinham educado, e feito “sacrifícios” para ele ser o que é hoje. “Tempo aparentemente tão mal empreendido”, pensou sarcasticamente na altura. Porém, isso sim, teria de passar dois dias com cada um, visto que os dois estavam separados e a viver em casas diferentes, e desde o divórcio que nunca mais tinham falado ou contactado pessoalmente. E, desde logo, tal ideia repugnou-o, decisão ainda mais incrementada por ter que realizar inúmeras viagens em tão curto espaço de tempo de um sítio para o outro, e ainda por cima de transportes públicos, pois nunca mais voltara a ter coragem de conduzir um carro depois do que se passara com Ricardo...
Acabou assim por ficar por casa, aproveitando esses quatro dias para relaxar e pensar no rumo que a sua vida estava a tomar.
Depois de um primeiro dia sem aulas em que quase não se levantou da cama, na sexta-feira acordou e saiu cedo da casa de Nuno onde ainda morava, agora sozinho.
Sem saber exactamente para onde ir, deixou calma e delicadamente que os seus pés o conduzissem.
Após um ligeiro pequeno-almoço numa pastelaria onde nunca havia entrado antes, parou no quiosque do parque, onde habitualmente todas as manhãs lia as “gordas”, principalmente as dos jornais desportivos, e comprou o seu diário preferido. Continuou a sua caminhada logo de seguida, de uma forma calma e serena, típica de um passeio matinal de um reformado, sem se preocupar muito para onde se dirigia, e atento a todos os seres, que, apressadamente e em correria passavam por si com uma expressão na cara, que poderia significar mil e uma coisas, tudo menos alegria.
Passado algum tempo, e já alguns quarteirões percorridos, sempre com o mesmo espírito de descontracção, era já alguma a fadiga que este G...iro homem, sobre o qual muitos olhares curiosos se detiveram ao longo do seu passeio (“Anda tudo em tão grande stress que todas estas pobres almas se admiram com um rosto despreocupado no seu quotidiano”, fora a explicação instantânea que logo lhe surgiu para tal novidade), era já algum, o cansaço acumulado.
Procurou então por um espaço que lhe parecesse simpático, onde pudesse não só repousar, como também passar um tempinho agradável enquanto punha as notícias em dia.
Assaltou-o um sentimento de nostalgia e surpresa depois de ter dobrado mais uma esquina, e perceber que os seus pés o haviam conduzido à piscina municipal, local onde passara tantas e boas tardes da sua adolescência com os seus quatro companheiros de aventuras…
Naturalmente a piscina não tinha água, e encontrava-se tapada, pois corria o mês de Novembro. Mas num olhar mais atento, observou o café da piscina e a sua esplanada a abrirem. Olhou para o seu relógio de pulso…que lho tinha oferecido Ricardo aquando das suas vinte e duas primaveras…, o ponteiro dos minutos tinha acabado de se encontrar com o das horas no número dez. E assim, num acto de coragem, e pensando que seria uma manhã de facto bem passada numa daquelas espreguiçadeiras, a aproveitar o ainda algum sol de final de Outono, entrou em passadas decididas e vincadas, dentro dos limites da piscina municipal.
Passavam já quinze minutos das onze horas da manhã quando finalmente poisou o jornal no chão. Levantou-se, e dirigiu-se ao senhor de avental que andava a atender as pessoas que iam chegando, e muitas logo de seguida partindo, para tomar um café.
Sem mais nada de especial para fazer, depois de ter pago o seu café, pediu uma caneta emprestada ao sujeito de bar para poder voltar para o seu lugar e estender-se de novo na tão confortável espreguiçadeira, e se divertir a fazer as palavras cruzadas ou o jogo das diferenças, tão característicos das últimas páginas dos jornais.
Aconchegou-se por fim outra vez, e ao estender o braço direito para recuperar o jornal, bocejou.
Não lhe apetecia fazer rigorosamente nada. Simplesmente, ficar ali deitado horas e horas a aproveitar dignamente aquele sol não muito habitual numa manhã de final de Outono.
Porém, quinze minutos depois, com o sol quase a atingir o seu ponto mais alto no céu limpo, sentia já a sua face bastante quente, e teve necessidade de puxar do jornal, e abrindo-o, colocou-o por cima de sua cara, de forma a que esta não estivesse exposta ao sol.
Passou mais dez minutos como estava, quieto e sereno. Mas não tinha sono.
Inevitavelmente, a sua mente começou a divagar. Primeiro, imaginou onde e o que estaria a fazer naquela hora se realmente tivesse decidido visitar seus pais, os quais já não via desde o pouco tempo que passou com cada um nas férias de Verão. Depois, sentindo-se protegido por todo aquele calor solar que lhe aquecia todo o corpo, começou a relembrar tudo aquilo que havia acontecido nos últimos tempos na sua vida.
Desde os trágicos acontecimentos do Verão que este G…arrido homem não vivia, isto é, deixava simplesmente que tudo fosse acontecendo na sua vida, sem fazer qualquer esforço para alterar o seu papel algo passivo nesses acontecimentos que ia vivenciado.
Assim, ao sentir aquele sol todo na sua pele, sentiu-se vivo, não evitando um largo sorriso, no qual, claro, ninguém reparou, por estar com a cara tapada com o jornal que tinha comprado.
Relembrou, o pedido de Sandra, uma amiga sua tão chegada como os seus outros companheiros, pouco tempo depois de ter começado a dar aulas na sua nova escola. Sandra convidara-o, dado o seu muito talento com violas clássicas e acústicas e guitarras eléctricas, instrumentos de cordas em geral, convidara-o a juntar-se a ela e a outros dois conhecidos, para formarem uma banda. Nada de muito profissional ou sério, pelo menos a início, simplesmente para passarem o tempo e fazerem uma coisa que ambos adoram: música.
Quando confrontado, ficou algo reticente, mas, a verdade é que, mesmo não percebendo porquê, não conseguiu negar-lhe o seu pedido. Assim começaram a juntar-se, os quatro, duas vezes por semana para tocarem juntos. A inicio as coisas correram bem, e este G…alanteador chegou inclusive a entusiasmar-se, principalmente devido ao seu talento que estava a dar frutos, e à única e excelente voz de Sandra.
Mas foi sol de pouca dura, e com o avançar do tempo, os seus ensaios foram se tornando cada vez mais uma rotina do que um tempo de prazer.
Inclinou-se ligeiramente para a esquerda na espreguiçadeira, para que a pequena brisa que corria lhe batesse nas costas e não no peito, e recordou os encontros mais constantes entre ele e os seus três amigos depois da partida de Ricardo.
O local de eleição era a casa de Nuno, onde ele próprio estava a viver. Era quase como uma necessidade que os quatro amigos tinham, depois daquele triste Verão. Embora as reuniões fossem tão desesperantes como seria possível imaginar. Muitas vezes resumiam-se a ficar cada um num canto da sala, sentados ou deitados no chão de uma forma confortável, evitando falar de qualquer assunto com medo e receio que a troca de palavras fosse inevitavelmente parar ao assunto: morte de Ricardo. Mas era como que uma necessidade fisiológica para cada um dos quatro amigos, cada um mais abalado do que o outro pela perda do seu companheiro.
Finalmente, a última recordação que lhe veio há memória, foi também aquela, que nos últimos tempos o mais surpreendeu.
A partida de Nuno e João, dois dos quatro chegados amigos, para uma acção humanitária num país africano de “terceiro mundo”.
Era certo, e mais que conhecido o gosto destes dois amigos pela missão e voluntariado. Não foi essa a questão que surpreendeu este G…arboso homem. Mas sim, o facto de, ter sido este o momento específico escolhido para tornarem real esse sonho, afinal de contas, também eles não estavam nas melhores condições emocionais ou psicológicas.
A sua barriga ronronou e levantou-se da espreguiçadeira. Já estava na hora de almoço e começava a ter alguma fome. Decidiu assim que estava na hora de voltar a casa, onde morava agora sozinho desde a partida de Nuno, que lhe a havia confiado. Dobrou o jornal e meteu-o debaixo do braço, e reiniciou a sua caminhada, agora de regresso a casa e em passadas mais largas.


publicado por Casmurro às 22:57

Venha o 3º Cap.
Tou colado ao teu blog à espera....
Não sabia que conhecia um escritor...vá confessa onde foste "plagiar"!

Abraço Mano
skub a 18 de Janeiro de 2007 às 11:21

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