Serve-se um olhar mundano e libertino. Serve-se uma arrogância sonhadora e juvenil. Serve-se uma ironia coerente e um humor valorativo. Serve-se tradição e modernidade. Serve-se na condição humana, Brinda-se com a casmurrice pessoal!

13
Dez 07

Para alguém como eu, que já leu a obra Admirável Mundo Novo de Huxley, a crónica opinativa de Henrique Monteiro sobre a nova lei do tabaco, publicada no Expresso de 1 de Dezembro deste ano, reveste-se de grande interesse e reflexão social, não apenas para quem tem por vício fumar, mas também para aqueles que, como eu, não têm por hábito tal acção.

É um artigo de opinião que nos faz reflectir sobre até onde, proibições e interditações de comportamento humano como esta, não nos levarão para uma sociedade taxativa de propósito comportamental pessoal.

Quem nunca contemplou “as profecias” de Orwell e Huxley, 1984 e Admirável Mundo Novo respectivamente, mundo utópicos (ou futuros reais?), de automatização e mecanização de comportamentos e respostas comportamentais humanas em sociedades hierarquicamente e não-discutivelmente construídas, não deixe de ler esta pequena crónica sobre um suposto degrau da escada para a “falta de autonomia do indivíduo e a sua subjugação ao colectivo”:

 

“Razões pelas quais desconfio da lei do tabaco


Um novo fantasma assola a Europa. Não é o comunismo, mas inspira-se num dos seus princípios: a falta de autonomia do indivíduo e a sua subjugação ao colectivo.

De acordo com esse fantasma temos de ser saudáveis, da mesma forma que temos de ser magros, neuróticos, "workaholics" e modernos. Faz parte da cartilha não fumar e ser quase a favor da pena de morte para quem fuma; não comer gorduras nem açúcares, frequentar um ginásio e achar piada quando uma empresa pública decide chamar 'Phone-Ix' a uma rede de telemóveis virtuais.

Isto não tem nada a ver, dirá o leitor. Tem tudo, digo eu que não fumo, como o menor número de gorduras possível, nado piscinas para trás e para a frente só com o objectivo de não ser gordo, trabalho imensas horas e acho alguma piada ao 'Phone-Ix'. O que liga isto tudo é a nossa programação. Eu sou sensível a essa programação e já me sinto mal se comer uma feijoada ou um cozido; se não fizer exercício físico fico com problemas de consciência e não tenho a coragem suficiente de dizer aos senhores dos CTT que, antes de tudo, eles são um bocado ordinários e que, à frente das minhas filhas, palavras daquelas não se usam.

Este fantasma que nos programa e reprograma estende os seus tentáculos pelo Estado. Por isso achamos normal que o Estado legisle que é proibido fumar nos lugares que o Estado gere e numa série de outros que o Estado não gere; por isso achamos normal que a ASAE decrete que as bolas de Berlim não podem ser vendidas como sempre foram, ou que os pastéis de bacalhau não podem ser congelados nos pequenos cafés e restaurantes. Por isso, achamos lógico que o Estado legisle e volte a legislar sobre o nosso bem-estar, como se o nosso bem-estar não fosse uma coisa completamente nossa, individual, e não colectiva. Por isso, um dia reagiremos com indiferença se nos implantarem um "chip" por baixo da pele que nos impede de fumar, de comer gorduras, de estar sentado em frente à TV mais do que o tempo recomendado, de pôr açúcar no sumo de laranja, de beber um copo quando a alcoolemia já ultrapassou os 0,5 mg/l ou de nos apaixonarmos por alguém considerado não compatível connosco.

Nesse dia, estarão realizadas as profecias de Huxley e de Orwell. Se a memória ainda for nossa (e não "chipada") lembrar-nos-emos de como nos levaram com a linguagem politicamente correcta, com a lei do tabaco, com tanta coisa que nos pareceu boa.

É por isso que eu desconfio.”


publicado por Casmurro às 00:26

Bom texto. Já agora: a ASAE decidiu proibir a venda de castanhas embrulhadas em papel de jornal ou em folhas das páginas amarelas. É uma questão de higiene, dizem:

http://opoderdegrayskull.blogspot.com/2007/12/j-no-era-sem-tempo.html
PRS a 13 de Dezembro de 2007 às 12:17

Se calhar os homens da Asae comem as cascas da castanha...
IURIS a 31 de Dezembro de 2007 às 12:29

Concordo plenamente com este artigo, sou fumadora e nem se quer o digo pela lei do tabaco, que na minha opinião é apenas um exemplo da sociedade que "criámos", sim, porque infelizmente todos nós acabamos por contribuir para esta homogeneização de uma maneira ou de outra.
E o pior é que a pouco e pouco estamos a perder as pequenas coisas que nos caracterizam e que fazem de nós seres únicos, sejam elas qualidades, defeitos, vicios ou apenas coisas que simplesmente fazem parte de nós e do nosso quotidiano.


Mariana Pinto a 15 de Dezembro de 2007 às 21:42

Eu concordo com a ideia geral do artigo: a mecanização do individuo aos interesses ditos colectivos, é de facto um problema recorrente das sociedades actuais.

Mas na questão particular da lei do tabaco, não posso estar de acordo. Tudo bem que se deve dar a liberdade a cada um de escolher se fuma ou não (assim como de se auto-flagelar por exemplo, há quem goste) mas do mesmo modo, deve haver liberdade de quem não fuma poder escolher não levar com o fumo dos outros. Por isso até concordo que o acto de fumar fique limitado desta forma.

De qualquer maneira estou para ver qual vai ser a adesão a esta lei e quem a vai de facto cumprir. Agora que é proibido em muitos sitios, fumar vai ser ainda mais cool...
B. Mata a 15 de Dezembro de 2007 às 23:06

Essa das castanhas deixou-me completamente boquiaberta. Confesso que não sabia e que acho uma parvoice enorme! Mas será que os senhores da ASAE não têm nada mais interessante para fazer?Só por curiosidade onde acham eles que as castanhas devem ser embrulhadas

Quanto ao post: sim é veerdade que estamos a ficar um pouco como robots, agindo como somos "programados"... Eu sou não fumadora... ou melhor sou uma fumadora-passiva não por escolha mas porque isso me é imposto: nos restaurantes, nos cafés, na rua, no local onde trabalho... Concordo que cada um sabe de si e não se deve proibir ninguém de fumar. Então porquê "obrigar" a fumar quem fez a opção de não o fazer?
Penso que o ideal seria haver duas zonas - fumadores e não fumadores - bem delimitadas e separadas uma da outra. Mas isso também é utopia...
abelhinha a 17 de Dezembro de 2007 às 13:00

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